06/04/2007

Sátira em Ruínas 2001





Francisco Campos
Susana Marques
Sara Machado da Graça



A vertente cénica deste espectáculo são os bufões, que funcionando em comunidade -proscritos pela sociedade-, são um espelho distorcido da mesma. Usando a paródia e a sátira como arma de sobrevivência, um bufão por via das suas deformações físicas e mentais está na sociedade como um judeu no campo de concentração, em perpétuo risco de vida. A sua condição humana é precária, mas isso faz despontar um profundo humanismo e sensibilidade por detrás da máscara distorcida das aparências.

Essa dramaturgia em movimento será sempre uma síntese entre o espaço cénico (a ruína) e um olhar crítico sobre a sociedade.

O espaço é tratado de uma forma cenográfica integrando objectos pictóricos, telas, interagindo com os efeitos de iluminação e com a arquitectura do espaço. As imagens das telas acentuam os valores trágicos da atmosfera em ruínas.

Os espaços.

Interessam-nos à partida locais construidos com funções especificas (igrejas, conventos, fábricas, castelos, armazéns, etc.) que, não sendo mais utilizados para a sua função inicial e mantendo uma forte carga histórica, emocional e estética, se insiram em comunidades que demonstrem interesse em dinamizar novos “velhos” espaços para intervenções culturais. A permanência desta carga simbólica nos espaços já destituídos da sua funcionalidade inicial tem uma ligação estrutural com todo o campo temático que este projecto pretende abordar.
A valorização extrema da funcionalidade, a importância dada à imagem física, tem vindo a alimentar comportamentos obsessivos em relação à perda de capacidades e a degradação do corpo, a convivência com espaços abandonados e de algum modo o terreno fértil para que estes medos e ansiedades ganhem intensidade.
A analogia entre a ruína do espaço arquitectónico e a degradação do corpo humano materializar-se-á numa abordagem plástica directamente decorrente da personalidade do espaço. Assim, a produção e integração dos elementos pictóricos deve funcionar de forma orgânica com o trabalho dos actores, no espaço.

O Drama

A dramaturgia deste espectáculo baseia-se na ideia de recriar um habitat natural para uma comunidade de bufões. Como os epaços são sempre diferentes, o nosso trabalho incide na adaptabilidade dos actores a cada um desses habitats. Assim, a dramaturgia varia consoante os temas sociais que uma igreja ou uma fábrica ou um armazém podem suscitar, apropriando-nos do espaço, criando uma intimidade com ele. Em cena são abordados alguns temas do nosso quotidiano, (refeições, discussões familiares, zapping televisivo, cenas de amor, música), usando os contrastes entre eles e o espaço, redimensionando-os.

Quem são estes bufões?
Na sua origem, os bufões são os estropiados, os dementes, os deformados, os anões, corcundas, as pessoas que pelas suas diferenças físicas e psicológicas eram perseguidos e expulsos das terras, durante a Idade Média. Nem a Igreja, nem a Assistência Social lhes valia!!! Eram considerados filhos do demónio ,e por isso, “exilavam-se” nos guetos, nos pântanos e florestas. Tinham aí uma organização social própria, uma forma de viver digna, sem que o dedo persecutório dos filhos de Deus os visasse. Mas, uma vez por ano, no Carnaval, era-lhes permitida a sua presença nas terras para animarem as festividades, epodiam nesse período retribuir as agressões de que eram vítimas. Ninguém levava a mal.

Faziam-no, parodiando e imitando os filhos de Deus, realçando as suas hipocrisias, os seus preconceitos, as injustiças. No fim da festa, quando o pudor religioso das consciências regressava, os bufões eram de novo pontapeados para os pântanos.

O estado de conservação dos espaços ajuda-nos neste propósito, pois são uma referência da decadência da sociedade que os construiu, e é essa mesma sociedade que marginaliza os espaços que já não servem, que é confrontada com a correspondente humana da sua discriminação.

O nosso processo baseia-se na improvisação. O bufão actua perante a hostilidade e repulsa que a sua figura provoca, e portanto, em risco de vida. Criamos nos actores/comediantes uma enorme agilidade, uma amplitude de registos e recursos teatrais, para que possa sobreviver a um “pelotão de fuzilamento”. O trabalho de improvisação é feito sob o signo do jogo, do humor, e da sensibilidade.

É um trabalho que se metamorfoseia e se molda a diferentes contextos; é um ritual, uma cerimónia para uma comunidade, e é esse mesmo contexto, diferente em cada apresentação, que o determina e lhe dá o carácter mágico e efémero do teatro.

No caso da primeira apresentação, realizada na Igreja de S. Francisco, o subtexto estava naturalmente ligado ao culto religioso. A simples intervenção neste espaço sacro dos bufões, os excluídos da comunidade, os imperfeitos, os gozões, aqueles que todos preferem não ver, encena automáticamente uma subversão/profanação.

Mesmo partindo de uma primeira experiência realizada no espaço de uma Igreja, não é nossa intenção fixarmo-nos nesse universo. Procuramos espaços nos quais seja possível realizar o acto da comunicação, pela energia provocatória dos bufões; pela organicidade dos elementos pictóricos; pelo som; pela luz; pela poesia dos objectos descontextualizados que são trazidos para o espaço e pela descontextualização dos outros que já lá se encontram e serviram outras funções. E também pelo espaço em si, com personalidade própria, repleto de histórias e outras vidas ,de cicatrizes e fantasmas.
No caso da Igreja de São Francisco, o espectáculo pretende-se ambulatório, lembrando formalmente os mistérios medievais. O publico circula de "palco" em "palco", presenciando vários momentos da vida dos bufôes nesta igreja. Serão integrados os elementos já aí existentes como elementos cénicos (carroça funebre do séc. XIX, cruz de Cristo, caixão de criança,...)

Queremos usar a força de um espaço obsoleto que pede para voltar a receber vida no seu interior, para voltar a servir a comunidade de alguma forma, atribui uma ambiência ao espectáculo que o torna mais concreto e vivo.

Procuramos que os bufões se apropriem momentaneamente de locais em áreas urbanas ou rurais, igrejas ou monumentos históricos em ruínas, intalações industriais abandonadas, matadouros, estábulos, guetos e pântanos - todos eles passíveis de albergar o desclassificados que visitam as comunidades das quais foram expulsos.

Os desenhos: o corpo

Em consonância com o espírito de todo o projecto, a intervenção pictórica tem por princípio fundamental a derivação do potencial dramático dos espaços utilizados. A intenção é a de criar uma espécie de segunda pele para as estruturas arquitectónicas, como uma prótese orgânica que faz eco da sua essência mais funcional, da presença fossilizada dos rituais que, tendo sido a razão de existir dos espaços, permanecem agora apenas na imaginação do observador.

Em termos concretos, o resultado material será uma série de desenhos com um grau de expressividade e sugestão elevados, que têm como única regra a figuração do corpo humano numa multiplicidade de aspectos possíveis dos mais matéricos aos mais icónicos.

A escolha dos suportes e meios será adaptada às características de cada espaço mantendo apenas o pressuposto plástico fundamental de que os suportes são transparentes e a aplicação da tinta corresponde a uma redução da permeabilidade dos mesmos à luz - criando uma variedade de aspectos mediante as várias iluminações.

O objectivo é criar uma “fauna” de figuras cuja consistência enquanto organismo se baseia directamente numa linguagem plástica específica, caracterizada pela liberdade formal e uma valorização da dinâmica das formas.


No campo da ambiguidade

Nos métodos de representação plástica, a figura humana aparece frequentemente incompleta - fruto do enquadramentos das imagens ou mesmo de uma atitude mais sugestiva do que descritiva - sem que isso comprometa a nossa capacidade de os entender enquanto referentes a uma corpo humano completo, atribuindo essas lacunas às condicionantes pictóricas. Agimos do mesmo modo quando a deformação das figuras atinge um grau de estranheza demasiado elevado, assumindo o carácter gráfico e plástico dessas deformações.

O caminho explorado neste trabalho está precisamente nos limites da resistência desta capacidade inata da nossa imaginação de completar o que parece incompleto, de normalizar o que é estranho em favor de uma unicidade, integridade e identificação dos corpos à realidade. As imagens destas criaturas colocam esta dúvida fundamental e devem sempre basear-se nessa incerteza: são estes corpos realmente deformados e amputados?


Workshop

O nosso processo de trabalho começa através da realização de um “workshop”, cujo público alvo serão actores da vossa região. Do resultado do trabalho desenvolvido por este grupo, são escolhidos alguns dos participantes para serem integrados no espectáculo, aos quais irão juntar-se mais 3 ou 4 actores convidados, já iniciados na técnica “Bufão”.


FICHA ARTÍSTICA

Encenação Francisco Campos
Envolvente cenográfica Sara Machado da Graça
Pintura Susana Marques
Desenho de luz e som Marco Ferreira
Figurinos Andreia Rocha
Grafismo Miguel Rocha



Elenco/ Actores convidados

Rita Jorge, Carlos Marques, Nuno Coelho, Hugo Samora.

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