06/04/2007

As Ilustres Horas - De Haerecticis, 2003





SiNOPSE

Um grupo de bufões, “travestidos” de saltimbancos e actores, conduz os espectadores por um bosque até a um antigo convento. No quintal desse convento, As ilustres horas (uma suposta peça inédita de um autor aparentemente famoso do século XVII ), é apresentada por um mestre de cerimónias. A peça inicia-se nas varandas das três janelas do 1º andar, que correspondem ao salão nobre do dito convento. Aí, os actores representam-na mas tudo o que se vê está entrecortado pelas janelas do salão, perdendo-se assim alguns nexos entre cenas. Os saltimbancos que ficaram em baixo no quintal, vão narrando e complementando o grande drama que se desenrola no 1º andar: qualquer coisa sobre um amor impossível, ou um desencontro entre pais e filhos, gente mui nobre, ...não se percebe muito bem... sim, gente mui nobre.
A justaposição de cenas provoca um confronto entre a comédia e o drama. A escrita do roteiro é baseada nas estruturas dos textos de época, respeitando as divisões em actos e cenas, as personagens tipo, e as dinâmicas dramáticas, mas substituindo conteúdos, reescrevendo os diálogos, transformando em narrativa alguns momentos, actualizando por vezes os estilos de representação, subvertendo, questionando as formas teatrais, etc.



Nos últimos três anos temos vindo a desenvolver em equipa um trabalho que articula o teatro e as artes plásticas, inseridos em espaços em ruínas ( ou simplesmente desactivados da sua função original ), os quais temos vindo a selecionar pelas suas características cénicas, com a intenção de os devolver às populações e de promover um debate sobre o seu futuro na comunidade em que se inserem. Fizemo-lo na Igreja de São Francisco em Montemor-o-Novo, um espaço em evidente estado de degradação, por duas vezes ( Sátira em Ruínas em 2000, e Gueto em 2002 ), e verificámos a utilidade da nossa experiência, a igreja é agora utilizada para teatro e outros projectos, estando em estudo a recuperação da igreja como sala de espectáculos e exposições.

Este ano fizemos um levantamento de outros espaços no concelho de Montemor, e optamos por criar um espectáculo para o Convento da Saudação. Apesar de já ser um espaço recuperado pela Câmara e pelo coreógrafo Rui Horta ( onde se instalou o Centro Coreográfico de Montemor ), existe uma vasta área no Convento que reune as características que procuramos para o nosso projecto, uma área menos conhecida, não restaurada, nas traseiras, onde nunca houve outra actividade deste género.
As intervenções do projecto ruínas implicam uma decorrência directa do espaço, ou seja, as histórias que contam já lá estão, não se trata de criar mas de encontrar, de as expôr; não se trata da utilização de um espaço mas da sua libertação.
A partir do levantamento inicial, e no âmbito de um workshop de projecto cenográfico, vamos ainda desenvolver um dossier contendo pesquisa histórica e visual relativa a uma selecção de espaços que se integram na nossa concepção de espaços-alvo. Deste processo resultará um documento editável com uma forte componente visual mas também com informação técnica e histórica de integração do edifício na comunidade, da sua desfuncionalização e/ou ruína e que desejamos que possa catalizar o interesse da comunidade para futuras intervenções nos ditos espaços.

Neste cenário natural, queremos construir um espectáculo que não fuja do caminho que temos vindo a percorrer, e que beneficie com a experiência por nós interiorizada. Dos outros processos herdámos os métodos de trabalho, mas também muitas ideias que não encaixavam bem na dramaturgia, ou que não se adequavam ao espaço da igreja, ou que simplesmente foram abandonadas por dificuldades de concretização; e também herdámos os erros e os insucessos, que enriqueceram as relações de trabalho da equipa, e individualmente, os criadores.

As ilustres horas, o novo trabalho, mais uma vez encontra no espaço e no relacionamento do público com este e com a acção, a sua razão de ser e o seu formato como espectáculo. O Convento da Saudação atravessou os séculos, ao longo dos quais sofreu várias transformações arquitectónicas, e mostra-se hoje como uma colagem de vários estilos. Por isso, o nosso trabalho reflecte essa intemporalidade, cruzando referências das várias épocas.
No seguimento da época medieval e da renascença surge o apogeu do excesso – o Barroco. Foi nesta época mágica e teatral (per se) , invocadora do impossível, da ilusão e do artíficio, que escolhemos alojar a estrutura cénica deste espectáculo.
O espaço não se poderia adequar mais às transformações de extrema importância que decorriam na época sobre o espaço cénico. Depois da racionalização da perspectiva renascentista, surge a perturbação dos sentidos, a ilusão da realidade, a moldura com profundidade.
Assim, parecendo paradoxal, a têndencia de evolução segue no sentido bidimensional: é com telões pintados que a ilusão da perspectiva redimensiona o espaço, tornando o cenário mais práctico, mais leve, mais portátil.
Temos portanto um cenário planificado – uma fachada dividida em dois andares; um piso térreo (o quintal) e as “varandas”. Várias janelas rompem a fachada sugerindo “molduras” onde se passam várias cenas.
Pela primeira vez nos nossos espectáculos, a disposição da plateia será convencional:em anfiteatro, no quintal, frente à fachada observando a acção que se desenrola ora cá em baixo, ora nas janelas. Mais uma vez o espaço nos empurra para as referências dos espaços teatrais da época visto que nos obriga a afastar o público para que ele possa visualizar toda a área de cena.
Os artíficios cenográficos a utilizar podem ir beber ideias à época, dado que é ela a mais rica nas descobertas de maquinaria teatral e de efeitos especiais – o que interessa é iludir. Recuperar engenhos de ilusão visual, das lanternas mágicas aos teatros de sombras e aos panoramas, coisas do tempo em que reproduzir a realidade era um jogo sem botões, e as três dimensões e o movimento eram os verdadeiros desafios. Na simplicidade dos meios, encontrar o velho fascinio pelas pequenas magias visuais, um fascínio que ultrapassa a consciência e a racionalidade.

O texto e o roteiro do espectáculo serão construídos ao longo do processo tendo em vista a criação de um ambiente que conduzirá o espectador, aparentemente, a um salto temporal. Esta regressão no tempo será feita mais pela sugestão do que pela reconstituição histórica, que não nos interessa tanto. Neste contexto, vamos abordar no processo um universo em que, inspirados no teatro da época ( Shakespeare, Moliére, Ruzante, Goldoni, mas também autores posteriores como Garrett ), construiremos uma atmosfera em que o teatro era ainda uma celebração entre actores e público, em que havia uma cumplicidade, um acordo, transformando o espectador em agente. Para o conseguir, queremos trabalhar a tensão entre a narrativa e a acção, entre o visível e o imaginável, criando uma ficção para logo desconstrui-la, sempre num sentido lúdico, pondo a imaginação do público a funcionar.

Por outro lado, o trabalho de actor, tendo por base a técnica dos bufões, insidirá na construção de uma oposição entre actores sérios e saltimbancos, entre narradores e agentes (um pouco como na Commedia dell’arte quando apareceram os actores sem máscara, em finais do séc. XVII e princípios do séc. XVIII). Os figurinos caracterizarão essa oposição. Afastando-nos de uma reconstituição histórica, a fluidez entre registos e tons dramáticos, não excluindo à partida nenhum possível, bem como o jogo in/out do actor, conferirão ao espectáculo uma complexidade, e ao mesmo tempo uma modernidade.
Este conflito, tão típico do trabalho de bufões, entre forças sociais opostas, permite-nos abordar uma série de temáticas socio-políticas, com as quais confrontamos o público no nosso trabalho. A singularidade da condição humana, com as suas contradições, são a matéria-prima a desenvolver, no sentido de provocar no público a reflexão sobre o seu papel na comunidade. A paródia dos bufões, sempre tão hilariante, é o veículo para esta procura.

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